É através das actividades que modificamos os nichos do meio em que vamos maturando. É o fazer que nos sustenta e dá identidade. Criamos aqueles traços distintos de personalidade, que nos salienta em multidões transeuntes, através da forma como elaboramos gestos plenos de intencionalidade. Construímos uma singularidade na forma de levar à boca um talher apetrechado de delícias gastronómicas e saboreamos o seu conteúdo em expressões faciais que nos revelam ou como encontramos aquele objecto numa bolsa carregada de utensílios dementes e imprescindíveis para um qualquer momento numa década, porque no momento seguinte fazemos melhor.
Assumimos papeis que nos levam a envolver em actividades para as quais não temos manuais nem fizemos um curso ministrado por experts. É o papel de estudante que nos coloca perante involuntários momentos de chafurdanço numa pilha de conhecimento armazenado atrás de um clique. Mas estudamos e fazemos aquelas tarefas todas que supostamente nos preparam para a vida e, no fim, até conseguimos fazer uma ideia do que é que este blog quer acrescentar.
É o papel de profissional que nos embrulha durante horas, em dias de suposto uso de competências construídas em carreiras sonhadas . Fazemos, fazemos, fazemos. Pequenas tarefas de gigantesca habilidade.
Conversas, palavras de paixão em papeis de namoro, proprioceptivadas em desejo dobrado e redobrado até assumir forma de origami e amarelar em mares de cumplicidade entre dois capítulos de um livro de letras de canções sussurradas e com lugar de destque entre compêndios de vida.
Trememos em longos olhares agitados e reconfortados no papel de pais, agressivos nas acções que evitam as ameaças à nossa obra-prima, carinhosos no aprender a ver como essa peça de arte nos toca ao vê-la crescer em formas de confiança. Os passos dados são simples mudanças de fraldas, pontapés em bolas contra ventos, mãos dadas em caminhos para aglomerados de almas esfomeadas de aprendizagem, cobertores aconchegados nas manhãs esfriadas por angústias febris e muitas mais actividades.
É o papel de amigos, em atitudes tão surrealistas como este texto, em gargalhadas entornadas numa mesa de um bar, em viagens de glórias conquistadas numa estrada alucinada entre vales acampados neste e noutro planeta, em personagens de um enredo estampado para lá de uma bilheteira intelectual, em noites passadas nas celas das acções irreflectidas que amanhecem em silêncios rompidos por sorrisos. Neste barco em voo intergaláctico, em classe turística ou executiva, definimo-nos na forma como fotogramos um pedido de ajuda ou prescindimos de nós para o outro.
Foi o que fizemos e o que queremos fazer que definiu essas amizades, esses produtos de um passeio sobre um arco-íris. Aqueles gestos aprendidos, chorados e apreciados a cada destino, constroem o que estamos a ser. Pode haver decisões moldadas por entidades transcendentais, por igrejas escritas em feiras ou em estrelas. Nesse percurso, em cada espaço que ocupamos, em cada gesto que desenhamos, pode haver mais para fazer mas, entretanto, queres tomar um café?
É uma brincadeira que se sente no corpo!
Estamos comprometidos com um sol que nos molda os genes de tal forma que esquecemos como aprendemos a mexer. Desenhamos as acções, de milésimo de segundo em milésimo de segundo, obliterando uma atmosfera originária de um Big Bang religioso e enriquecida com oportunidades de vida.
Sentimos a música num crescente ritmado pelo ir e voltar de um baloiço vestibulante que nos entontece e faz querer mais. muito mais. Somos beijados por uma humidade hormonal que nos percorre neurónios a uma velocidade estonteante e nos desafia a perceber de que matéria é feita uma corrida pelos pensamentos.
Crescemos, então, a pensar e a comparar a perfeição com que os nossos olhos descortinam as vontades de ser o que não somos. Num repente, tão lento quanto a passagem de um cometa, caímos das palavras e tacteamos as letras anestesiadas por uma qualquer outra mente que nos saiu em rifa, numa qualquer feira de vaidades.
Nunca paramos de sentir, tal como nunca deixamos de jogar com o destino enquanto vemos a proprioceptividade dos nossos desejos numa acção tão simples como dizer que não.
Eventualmente, ficamos cansados de tanta neurotransmissão que não corresponde aos nossos padrões. Queremos que tudo e todos entendam as regras como as escrevemos ao nosso gosto. Desiludimos quando um movimento arrasta outro imperfeito. E depois outro. E depois deixamos ficar o erro numa praia onde encalhou um navio fantasma e rimos de nós. Olhamos para a praia e vemos uma esplanada inacabada. Muitas acções para fazer que nos vão provocando alegria e evitando a dor ou, pelo menos, sublimando porque não interessa relembrar mutações. Elas ficam tatuadas de qualquer maneira, mais ou menos visíveis para quem quiser ver.
No entretanto, são as sinapses de adaptação cultural que nos dominam os acontecimentos quotidianos. Confrontação à laia de jogo. Chega uma altura em que caímos do alto de uma escadaria feita de afectos para logo nos erguermos com um tónus revigorado à custa de memórias sensoriais e doses cósmicas de volição.
Nesta curiosa deambulação, procriamos amizades que vamos coleccionando em estantes onde nunca mais voltamos. São albuns imensos de música cuja letra misturamos em visões temporais. Só quando nos dá jeito, para acalmar o nistagmus da rotação espirolante em que somos envolvidos, voltamos a esses afectos.
E quando damos por ela, estamos incapazes de parar, num caminho que apenas nos exige energia. O fim do jogo depende sempre do tipo de energia utilizada: a altruísta sem chumbo ou a egoísta subsidiada.
É uma brincadeira que vamos sentindo no corpo.
Nunca fui um pai perfeito. Também não fui um filho perfeito. Longe disso.
Faz 11 anos que assumi de corpo inteiro, de forma muito desejada, o papel de pai. Continua embutido na minha pele aquele momento em que peguei no corpo indefeso do meu primeiro filho. Agarrei-o com as minhas mãos de forma tão nervosa quanto emocionado e limpei-o e vesti-o (de verde claro). Durante as suas duas primeiras horas de vida, enquanto a mãe era tratada de uma cesariana de urgência, falei com ele sobre tudo. Contei-lhe que, a partir daquele momento, ele seria a minha prioridade na vida. Contei-lhe que o que ele estava a respirar era o ar. Contei-lhe que o que estava a ouvir era a minha voz. Contei-lhe que o som que estava lá fora eram buzinas de automóveis. Contei-lhe que havia coisas boas e coisas más. Falei sobre a chuva e o sol. Falei sobre a relva e o mar. Falei sobre construir e voltar a construir.
Fiz a mesma coisa com o meu segundo filho. As palavras foram outras, mas isso não interessa. Só queria que soubessem que estava ali com eles.
Durante estes 11 anos ainda não parei de lhes contar coisas, tal como eu as percebo, sabendo que eles as percebem à maneira deles. Não interessa. O que me interessa é que eles saibam que podem contar comigo. Eles, talvez sem o saber, dão-me muito mais do que eu alguma vez conseguirei lhes oferecer.
Ser Pai é uma sequência contínua e egoísta de receber das sensações que proporcionamos aos filhos. Mas só podemos receber se estivermos ali com eles, mesmo que não fisicamente. Damos acção, participação, partilha. Oferecemos imagens em livros, em histórias, em viagens. Damos castigos, ralhetes e dizemos "agora não posso". Damos sabores, cheiros, risos e choros. Oferecemos corridas na praia, chutos na bola, lançamos papagaios de papel.
E o que recebemos: recebemos universos de sensações num abraço matinal. E isso vale tudo!
A propriocepção pode ser entendida como um sexto sentido. Há quem diga que as mulheres possuem um sexto sentido. Então, como nós, os homens, também possuímos propriocepção, não pode ser este o sexto sentido das mulheres. Elas devem ter é um sétimo sentido.
Eu acredito que seja a combinação de todos os outros para lhes dar extra capacidades tais como, descobrir um pequeno utensílio de maquilhagem, só pelo tacto, numa carteira cheia daquelas coisas que elas gostam de ter sempre à mão; ler as mensagens subliminares que nós, os homens, deixamos por todo o lado com os nossos pequenos movimentos durante uma discussão sobre o porquê de não termos feito o que estava combinado para o fim da tarde, com os miúdos; perceber que o filho vai estar doente só de olhar para os olhos dele entre duas colheres de sopa e uma mão na testa; Qualquer que seja ele, dá-lhes uma certa vantagem nas relações interpessoais e na forma como conduzem a vida familiar. E isso nunca deve ser subestimado!
Então, quando ela é mãe, mesmo que não biológica, é um erro tremendo ignorar este sétimo sentido, pois ele dá-lhes uma percepção quase extra-sensorial de como fazer o possível e o impossível para nutrir de comida, de afecto e de ferramentas para que a cria (a criança) cresça dentro de quaisquer que sejam os valores sociais e culturais por que se regem. Veja-se o caso da família de acolhimento da menina que foi enviada para a Rússia, para a mãe biológica. Foi na "mãe" que vimos a assertividade e os olhos mareados pela impotência sentida.
Não se enganem! Os homens também podem ter este sétimo sentido. E provavelmente até o têm. Mas, na maioria dos casos, parece que se esquecem de o utilizar. Talvez por pensarmos que nos torna demasiado efemininados.
Mas, a falta dele (o sétimo sentido) também não deve ser ignorado, pois pode tornar-se numa disfunção. Veja-se o caso da "mãe" biológica russa, naquele excerto revoltante em que agride a pequenita para que esta não volte a falar na "mãe" portuguesa. Não me parece que todas as mães russas sejam como aquela, mas esta não tem, de certeza, este sétimo sentido. Se teve, perdeu-o algures numa ilusão, numa dose de heroína, numa cama ensanguentada, numa infância sem abraços, sei lá.
Por outro lado, quem decidiu que esta menina devia ser entregue à mãe biológica, das duas três: ou não é mulher; ou não é mãe ou perdeu o seu sétimo sentido.
Se foi esta última, a razão de tamanha violência para com aquela criança, então estamos perante uma disfunção que deve ser tratada. Ouvi dizer que na Sibéria existem umas clínicas especializadas...
... o tipo de informação sensorial que se recebe, em cada momento da nossa vida, que nos permite saber em que posição se encontra cada segmento do nosso corpo, que relação existe entre cada um desses segmentos e o espaço que nos circunda, a amplitude do movimento que estamos a realizar, a força que está a ser exercida e a velocidade a que está a ocorrer o movimento. Com essa informação podemos dar continuidade ao movimento de forma mais eficiente ou preparar novos movimentos.
Agora digam-me lá se falta ou não muita propriocepção por esse mundo fora?
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